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11 de nov de 2010

Crônica - “O abismo de nossa própria mente” (Antonielson Sousa)


- Meu Deus... por quê?
Os gritos desesperados de uma mulher loira, robusta, pendurada sobre as grades da ponte, invadiram meus ouvidos. Olhei com espanto aquela mulher elegante, de aspecto intelectual, prestes a se jogar da estrutura. Encontrava-me incrédulo e assustado diante da situação e talvez por isso, deixei cair a sacola de compras que trazia comigo. O barulho fez a mulher olhar em meus olhos.
- O que você quer? – ela perguntou.
Meus braços congelaram e minhas pernas começaram a tremer. Eu nunca havia presenciado uma cena como aquela. Não sabia o que dizer e muito menos como reagir.
Meus olhos piscavam mais do que a quantidade das batidas das asas de um beija-flor alçando voou. Ainda assim, tomei coragem para dizer alguma coisa. Estendi levemente minha mão direita como um sinal de pare. Confesso não saber por qual motivo fiz isso. Mas fiz.
- Por... por... por... fa... fa...fa... vor... vor, não... não... não... não... fa... fa... faça... isso.
A mulher continuou olhando para mim. Parecia confusa com minhas palavras. Pôs um dos pés no chão, enquanto o outro permaneceu na grade da ponte.
- Você é gago ou está nervoso?
A pergunta me pegou desprevenido.
- Sou... sou... sou... sou... – dei um pequeno engasgo com as palavras, mas recuperei o fôlego e continuei – sou... sou... ga... ga... ga... ga... ga... gago.
- Por favor, responda-me apenas com a cabeça, balançando-a – disse a mulher.
- Ta... ta...
- Só movimente a cabeça – ela me interrompeu, num tom mais bravo.
Deu uma olhada para baixo. Parecia medir a distancia da ponte até a água. Curvou-se por alguns segundos. Depois, olhou na minha direção, com a expressão de devaneio.
- Suponho que você queira saber por que eu me jogarei desta ponte? – Eu ia dizer que não, mas ela continuou falando – Pois bem. Meu casamento não estava lá essas coisas, passávamos por problemas, o que é normal. Então resolvi pedir oração a Deus. Ele tudo pode, até o impossível. Fui a um congresso em São Paulo. Lá, o pastor pôs a mão sobre minha cabeça e antes que começasse com sua prece, resolveu dizer: “minha filha, seu marido não serve para você. Por tanto, eu irei orar para o fim de seu casamento”. Fiquei sobressaltada, diante da inesperada revelação. Mas apesar de ir contra minha vontade, acreditei no pastor. Foi assim que cresci: “acredite em tudo o que o homem de Deus diz”.
- E.. e... o... o... – tentei perguntar, mas mal comecei a formular a pergunta, ela adivinhou e indagou primeiro que eu.
- E o que faço aqui? – disse ela. Logo em seguida tirou um papel todo amarrotado do bolso. Parecia presunçosa. Abriu o papel e respondeu:
- Depois daquele dia resolvi pedir divorcio e me separar definitivamente do meu marido. Mas a partir de então, nunca mais soube o que é ser feliz. Ele foi e sempre será o único homem da minha vida. Porém eu o deixei. Não consigo encontrá-lo. Ele está perdido em algum lugar, assim como meu coração, vagando pelo vazio.
A mulher olhou aflita para mim. Respirou fundo. Pôs a mão direita no peito e com a esquerda confortou a folha de papel, toda amassada, na grade da ponte, depois jogou-se no abismo. Guarnecida de que sua vida já não tinha mais sentido.
Fiquei desesperado, sem saber o que fazer.
A pobre mulher já estava a tempos no abismo. Apenas não conseguia enxergar.
Na folha de papel deixada em cima da grade, estava escrito: “Talvez a culpada por tudo isso, seja eu mesma”. 

O maior problema da religião, eu acredito, é o fundamentalismo. E a própria religião, responsável por abrir os olhos de seus fies, quase sempre, ofusca-os, transformando os irmãos em livres prisioneiros.

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